Angelino dos Santos Silva



Angelino dos Santos Silva, nasceu na aldeia de Recarei, concelho de Paredes, em 24NOV1948.
Profissionalmente ocupa-se na venda de Produtos Químicos de Manutenção Industrial e na Assistência Técnica aos seus clientes.
Nas horas livres, ocupa-se na criação de textos poéticos e romances históricos com ficção.
KEPHAS – LIVRO II, próximo romance, será editado e apresentado em NOV2020.

CABANAS BEACH

Ah… barca do amor
Amor de barca
Que minhas penas levas
Ria fora, formosa e bela
Em tuas santas águas
Vão choradas minhas mágoas
De amores perdidos
Em oceano de esquecimento
Vai e leva meu lamento
Que a ti deixo confiado
E vem e traz-me do oceano
Ria fora, formosa e bela
Um mar de esperança
Em ti deponho confiança
Barca do amor
Amor de barca
E me livres deste tormento

MEU MENINO
MEU RICO MENINO!

Nas asas da andorinha de madeira que me prendaste, eu voava corria sonhava e nelas o meu sonho ia mais além e tu meu menino meu rico menino comigo sonhavas também pareciam palmas a bater as asas da andorinha que de madeira eram e no ano seguinte meu menino meu rico menino no ano seguinte puseste no sapatinho um ciclista numa roda só e eu corria sonhava e o ciclista pedalava pedalava … e sorria nas suas pernas de madeira e a roda fazia tic tac, tic tac, tic tac e o meu coração batia batia e fazia tic tac também e o meu sonho ia mais além e tu meu menino meu rico menino, tu continuavas pequenino nu e quedo que eu bem te via no presépio da nossa igreja e o meu pai me dizia que sim, que crescias que sonhavas também, que saíste das palhinhas e andavas a mudar o mundo no sofrimento da tua cruz e vinhas assim pequenino despido todo nu para caberes nas frinchas dos meninos que não tinham chaminé e eu dizia… ah, pois… percebo… para caber nas frinchas… por não terem chaminé… e houve um
ano meu menino meu rico menino houve um ano que puseste no sapatinho uma carruagem amarela, uma carruagem que eu nunca tinha visto, diferente das carruagens que paravam na estação da nossa aldeia e a carruagem trazia um pau às costas, e era de folheta a carruagem… de folheta… imagina, imagina o meu espanto pela novidade… uma carruagem de folheta com rodas de ferro como as carruagens verdes que via na estação da nossa aldeia, com rodas em ferro e tudo… e tudo… era um motor, dizia meu pai, que era um motor e o pau às costas puxava a electricidade, imagina… imagina meu menino… um pau que puxava electricidade e fazia andar a carruagem amarela que tinha pintado à frente um homem de pé sempre limpinho e fiquei muito feliz por esta novidade com um pau às costas… imagina… puxar a electricidade para a carruagem amarela andar sempre limpinha e fiquei muito feliz com a novidade e o meu pai me explicou que era um eléctrico que só havia no Porto… a grande cidade que eu já tinha visto e que um dia eu iria estudar no Porto, imagina… eu a estudar no Porto e andar na carruagem amarela a ver o maquinista todo sorridente todo limpinho e o meu pai me dizia que era um guarda freio, o maquinista e fiquei a imaginar… eu a estudar no Porto dentro dum eléctrico… que queres… uma criança vê tudo à sua maneira e fui logo a correr mostrar a novidade ao Xico… as crianças são assim… e ele disse, - Ah… que bonito… que é? Parece as carruagens verdes que param na estação… mas é amarela… nunca vi… e trás um pau às costas… ah… que bonito… que é? - É um eléctrico para aprender, disse eu, e ele disse - Ah… um eléctrico para aprender… que
engraçado, que bonito… não sei o que é, mas é bonito, muito bonito e ficou triste, muito triste o Xico, porque não tinha um eléctrico para aprender e eu disse-lhe: - Se calhar tens… vai ver, se calhar caiu abaixo do teu telhado, vai ver, se calhar a tua frincha é pequenina e caiu do saco das
prendinhas do menino jesus, se calhar rolou pelo telhado abaixo… vai ver, vai ver que deve estar por lá. Meu querido menino, meu rico menino Jesus, agora que te vejo pregado na cruz quero dizer-te que o Xico encontrou o seu eléctrico, brincou cresceu estudou e é hoje um senhor doutor que sabe muito sobre ti e sobre o teu sofrimento e gostava muito de te dar um abraço. Se puderes salta daí, deixa a tua cruz e vem menino outra vez com o saco das prendinhas e manda prá reforma o velho simpático que tomou o teu lugar e faz ouh ouh ouh e no saco traz calor para os meninos com sol e frio para os meninos com frio. Meu rico menino meu rico menino Jesus que saudades tenho de voar na tua andorinha de madeira e de aprender na tua carruagem amarela!

angelinosantossilva@gmail.com

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