Figas de Saint Pierre de Lá-Buraque



A POESIA CUSTA A ACORDAR

Antes de me deitar
deito o poema numa página
aconchego-lhe a tinta
enrosco-o nas curvas das linhas
o poema quer-se aquecer
ponho-lhe mais um verso quente por cima
e dou-lhe a companhia da rima
por fim, o poema adormece
com um sorriso entre linhas!
Retiro-me, de mansinho
depois deito-me eu
ambos esperamos o dia
O sol apareceu
em esplendoroso raiar
e alguém leu o poema
não sei se nele poesia leu!
É que a poesia, nos poemas
custa, muito, muito a acordar!

CUSTO DUM POEMA!!

Fazer um poema é ir à floresta
cortar uma árvore
pagar o transporte
trazer o tronco até à serração
mandar serrar
serrar
serrar
cada vez mais delgado
cada vez mais fino
cada vez menos pau
até que fique num palito, para
depois o poeta tirar dos dentes
uma lasca de bacalhau
da última refeição
só depois é que lhe veio a inspiração
e, nas calmas, fez este poema
Cortar uma árvore mereceu a pena!

Depois, leu o poema, ouviu muitas palmas!

REMENDOS

Pego nas palavras
brinco, desmancho-as
espreito-lhes o significado
esvazio-as, separo fonemas
mas, depois de desfeitas
não as sei montar, novamente!
Com elas eu queria montar um poema
Que pena!
Paciência

Apesar da idade
de poeta ainda sou menino
Minha mãe, para me consolar
dizia que eu era um poema ao seu olhar
e que, mais tarde
para algo deveria servir minha pena!
Quando cresci, com palavras desfeitas
imperfeitas, tentei poemas tecer
mas só me saem remendos
Talvez, como poeta
ainda consiga crescer e escrever
em papel de prata, um poema
sem o rasgar!

Figas de Saint Pierre de Lá-Buraque

figariano@sapo.pt

Comentários

  1. Poeta é quem lança rimas de almas e pensamentos na praça pública. Um abraço poético.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ângelo Vaz

Manuel Maia