Rosa Maria Valente Soares
ETERNIDADE
Quando o cio das gaivotas
Se enreda no abraço das marés,
Dispo-me num remoinho de búzios,
Bebo a melodia dos barcos.
No penhasco
As gaivotas ardem com os braços estendidos…
Moro no lugar de onde nunca saí,
Com um pedaço de mar a dançar no cabelo
E um galho de árvore enlaçado ao pescoço.
Quando vieres,
Acende os pirilampos da calçada.
Não acordes os fantasmas com a tua amargura,
Não gastes o sorriso com discursos
Nem dinheiro em anéis.
Traz-me a lua e as estrelas que brincam no telhado.
Embrulha-as num paninho de lã para não se constiparem.
Se no jardim ainda medrarem malmequeres e grilos
E na praça, meninos rotos a chutar a bola,
Para não se quebrar nenhum instante
Traz-me esse presente aninhado num cestinho
Para eu voar em ziguezague até á nuvem
E bordar um jardim na eternidade.
Rosa Maria Valente Soares
NA TUA PELE
Podias emprestar-me
Um poro da tua pele
Para esculpir o meu poema.
Já gastei o papel e a tinta,
Só me resta o cinzel…
Nos poros da tua pele
Moram em desalinho
Os mares e os temporais…
Desculpa, mas não tenho jeito
Para esculpir o meu poema
Num sítio tão metralhado
Onde qualquer astuto rabisco,
Mesmo com pedigree
Corre o risco de quebrar…
Desculpa esta minha desanda…
Vou abortar este poema
Que me adorna o pescoço
Porque ao pousar na tua pele
Mesmo que já esteja morto
Vira logo eczema.
Rosa Maria Valente Soares
Rosa Maria Valente Soares
Sagitária, nascida em Águeda, viveu em Angola o esplendor da infância e o negrume da guerra. Conhceu o campo de refugiados, em Luanda.
Educadora de infância, em Marco de Canavezes.
No currúculo tem dois prémios literários, um romance, dois livros de contos e 2 livros de poesia.
rvalentesoares@gmail.com

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