Donzília Martins
“SENSIBILIDADES”
Não há ninguém tão sensível como um poeta!
De metáforas e dor a sua vida é cheia!
Um coração puro, lavado, grande e de alma aberta
Dá-se a todos por inteiro! E tudo o enleia!
De rios de lágrimas e luz se faz o seu sangue
Pois onde há pedras ele vê e sacraliza flores!
Pega-lhes! Carrega-as! E, qual Sísifo exangue
Espalha-as no caminho e as pétalas são dores.
Existir para o poeta é uma forma de resistir,
Coexistir, cantar, chorar e beber o cálice do amor.
Em todos os cânticos há hinos de versos a sorrir
Como se os lábios rubros não tivessem mais cor.
Olhar saudoso, cabelos prateados pelo tempo
Uma haste ereta, ora vergada a fecundar o chão.
O poeta canta a dor o mar, o luar e o seu lamento
É canção de amor a brotar sementes do coração.
O poeta tem uma tal e insustentável sensibilidade
Que chega a pensar que tem no peito o inteiro mar
Confunde o tempo, a hora e na sua real verdade
Desenha estrelas com a lua pousada no seu olhar.
Donzília Martins
“Da minha janela”
Presencio a manhã a despertar no meio do mar,
o vaivém das gaivotas a voar,
e o deslumbrante entardecer a incendiar o oiro sobre azul.
Esta hora é fogo escaldante a querer mergulhar,
é tarde apagando a luz para nascer o luar,
magia e feitiço a prender o meu olhar.
O movimento das horas tardias rompeu o dia num parto sem dor
para dar vida às estrelas.
Também a lua enamorada vem espreitar
estendendo os cabelos ondulados e faz estrada no mar.
Então o esposo amante recebe-a no seu seio e poe-a a embalar…
Ela adormece e até esquece que é poesia nos braços do amor.
Deliciam-se e brilham com as oscilações do vento,
com os barcos vogando no escuro da noite,
o foco incandescente e o silvo do farol quando desce o nevoeiro.
Enamorados, babam-se de espuma branca dos beijos na orla indefinida.
Da minha janela arde o medo da solidão nos pirilampos acesos no mar,
nos néons suspensos lá em baixo no fundo da minha alma
e as ruas são veias sufocando gemidos.
E quando o céu se zanga, a noite apaga-se no ribombar do trovão
e no lume do relâmpago a morrer no mar.
Um belo horrível desenha-se nos meus olhos e sou estrela
Fogo, luz e poesia no vidro da minha janela.
Donzília Martins
“Ainda vos espero”
No dealbar da manhã quando estendo a mão e sinto frio
Quando os olhos cansados pedem opinião e o olhar se perde no vazio
Quando não tenho a quem cantar ao fim do dia o meu verso.
Meu coração dorido vasculha cada canto, reza e implora
Que preciso de vós, cada instante e a toda a hora
Sozinha sou, um ponto perdido sem luz, no universo.
Sem vela, sem rumo, sem estímulo, sem leme…
Minha alma sedenta de carinhos e afetos, teme
Jamais encontrar um porto seguro.
Maternas são as sombras as luzes e a voz
Tenho tudo, até o sonho, e contudo, tudo me falta sem vós
Porque cada esquina da vida tem pedras ácidas e é escuro.
Sou árvore seca bamboleando, sacudida ao vento!
Sem raízes, sem folhas, tronco carcomido pelo tempo
Vagueio sozinha na intermitente sombra, sem amor.
As minhas lágrimas correm, hoje como ontem, como um rio
Não há luz, nem palavras que aqueçam e encham este vazio!
Como pássaro, inicio o voo, caio, ergo, tentando ser feliz na dor.
Ainda vos espero! A ti avó que foste minha mãe e minha luz;
A ti companheiro que semeaste no meu ventre o amor, e a tua cruz
Carreguei contigo cinquenta anos lado a lado.
Espero-vos para ter um ombro amigo e doce onde chorar
Nos dias de sol, de chuva, em terra, no infinito, no mar…
Mas só no coração estais! Ó minha vida e meu amante desejado.
Donzília Martins
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