Maria Olinda Sol



 Maria Antonieta Pereira da Silva licenciada em História. Foi professora durante 36 anos no ensino oficial. Tem participado nas colectâneas de poesia da Galeria Vieira Portuense.


2020


Não sei de onde vem

esta vontade de comer cerejas,

olhar para as árvores, só,

meter- me dentro do silêncio,

pensar nas asas doAnjo Gabriel.

Ficar espapaçada ao sol

como o gato Fred

que fugiu daqui

para oquintal da vizinha.

desejar antes a  Primavera

que este calorinfernal,

ninguém lê poemas,

 eu escrevo o meu,

a manhã espreita de soslaio

por entreas cortinas verdes

agitadas pelo vento.

o coração bate mais forte,

eu, sinto o que sinto

neste dia de julho

do ano estranho 2020


TE VOGLIO BENE


Te voglio bene

céu azul

a romper por entre

o nevoeiro da manhã,

o sol ardente,

de repente, batendo

à minha janela fechada.

o vento leve

abrindo a cortininha branca

amarrada em laçarotes

cruzados,

renovando de mansinho

a sala adormecida.

E os dedos abertos

por onde escoam

algumas mágoas,

as maõs apanhando

os fados trinadosda Amália,

ecoando nas velhas ruelas

emocionadas.

Partidas e chegadas de barcos,

derrubados piratas e espadachins

entre Bruges e Antuérpia.

 e o país vogando

entre vontades e medo,

de socalco em socalco,

até chegar ao ponto mais alto

desta pequena pátria

debruada a ponto azul de mar.



ESTADO DE ALMA


O cão sarnento bate à porta

a menina de chapéu vermelho

deita-lhe a língua de fora,

um casal de canários

chilreia baixinho

na gaiola encriptada.

Alguém olha atempestade

no fundo do horizonte encardido.

Os corpos dos poucos trnseuntes

escurecem acalçada,

presos à alma são uma ventania

soprando nas brasas

do carvão, por  ora apagado.

o café quente queima a chávena,

limpa  todos os restos de soluços,

agarrados, presos à laringe.

Içam –se as bandeiras de festa

em mastros abandonados.

As ruas não são as mesmas

vazias de gente e de cantos.


a.f.costa1950@gmail.com


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