Maria Acilda Almeida
Portugal
Portugal já não tem barcos olhando o horizonte
Nem caravelas a partir rumo a oriente a descobrir
As ruas esvaziaram , o cinema mudou o seu lugar,
as escolas adormeceram ,os paquetes também
adormeceram pachorrentos no cais
sem ninguém para os fazer sonhar e as lojas cheias
de tudo são lugares interditos a cada um entrar
e os cafés são apenas lugares ao sol
onde a primavera ,assim, a passos amedrontados
vem incautamente seu lustroso matiz mostrar e
as esplanadas com olhar vidrado no mar têm lugares
onde já ninguém se vem sentar, as praças
já só têm árvores em seu triste assomar
e onde os pássaros estonteados vêm sua liberdade gritar…
Os rios pujantes estão mais claros e até o mar menos denso
menos plúmbeo o céu e menos acinzentado em seu silêncio
invulgar e onde aviões ensurdeciam em seu ruidoso cruzar
Já não se trocam beijos, e os abraços aguardam
e são dados apenas com o olhar…
Mas Portugal é ainda ´canção , o mesmo cravo de abril
Sereno em seu triste desbotar é Grândola Morena
em seu eterno brotar, país de sonhos que sabe
que tudo são apenas momentos , obstáculos
que como sempre saberá unidamente derrubar….
Maria Acilda Almeida
Foi para ti
Foi para ti que esculpi os mármores de Ravena
que bebi a tragos largos o solene colorido dos mosaicos
que me perdi nos tons ocres a derrubar o colorido da tarde
que me maravilhei no amarelo escandido ao sol poente…
Foi para ti, só para ti, que me embebeci na luz do mar,
E parti olhos vidrados nos olhos das caravelas que haviam
um dia, sôfregas de sonhos, ainda assim de naufragar
que colhi o som dos búzios em som sonoro ressoar…
Foi para ti, só para ti que vesti o desalinho do verde
intenso do pinheiral agitado em seu doce oscilar
que escutei o murmúrio pálido da acácia e do cipreste
e recolhi em meu colo a nudez e o cheiro pulsante da verbena…
Foi para ti, somente para ti, que quis colher o perfume
das rosas de Ispãa suspensas em jardins a já não encontrar
e me aconcheguei nos pórticos onde já não há seu lugar
e trouxe em minhas mãos tudo que havia para te dar...
Mas eram tudo nadas que entregava ao rendilhado do nada
Porque em tudo havia a tua ausência e nunca mais teu voltar…
Por ti…
Foi por ti que imensamente corei sob as folhas
dos vastos embondeiros milenares, que me deslumbrei
sob as agulhas álgidas dos ciprestes, que colhi
a travos largos o rastro dos passos cortantes e trémulos
do luar, que trouxe nas mãos mariposas esbatidas
na densa luz a desmaiar, que engoli o travo do pó
até quando solene o vento se espumando raivoso
teimava no seu buscar e ouvi na voz dos dinossauros
o som rouco do seu pluvioso chorar…
Foi para ti que colhi as rosas a florir antes do seu estar,
que colhi a voz dos malmequeres para na solenidade
da tarde em enlevo seu odor te poder dar e foi para ti,
só para ti, que colei sobre a relva húmida e fresca
no cicio da terra o meu corpo em seu doce pulsar…
Foi para ti que encarcerei as marés em vividez
Que corri a direito sem ouvir a voz de Orfeu
em seu doce cantar e também foi por ti que
sem esmorecer no silêncio da noite sem véu
fui Prometeu sem nisso ver nenhum pesar…
Foi por ti que tudo colhi e não para ti
O todo que assim imensamente colhi.
mariaalmeida19@gmail.com
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